No sábado passado, em 04-06-2016, fomos convidados para ir almoçar ao Cartaxo.

Antes do almoço, costumo dar uma volta pela quinta e pelos arredores e vou conversando com os meus amigos penudos. Vou fotografando algumas flores, alguns pássaros, às vezes, entre eles, perdizes. Mas ando por ali à babugem.

 

Chegamos, sentei-me uns minutos, na conversa e lembrei-me de perguntar pelo "barulhento". Aquele pássaro malhado de cabeça vermelha a que os homens chamam pica-pau. Porque já me tinham dito que o pica-pau, logo de manhãzinha, começava a martelar num eucalipto velho, já muito descamisado, ali perto das janelas.

"Vamos ver a casa do gajo"! Descemos 20 metros, até uma canecipe, junto do caminho antes de chegarmos à porta. Lá estava a casota do pica-pau. Sua excelência, numa árvore alta, construiu a casa à altura da minha cabeça. Já andaria por ali a ensinar os filhos, que criara, a caminhar no bosque. Nunca o vi!

Fiquei por ali a fotografar flores e vi um passarinho entrar numa casota que em tempos terá sido das galinhas. Vi-o sair e fui lá ver o que se passava, até poderia ver por lá uma cobra, que ela anda ali. Não vi a cobra mas vi umas coisinhas peladas, acabadas de sair dos ovos e um ovo ainda inteiro. Desandei logo dali mas tirei uma foto àqueles lindos príncipes da passarada.

 

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O ninho está encostado à parede e a uma vidraça que dá a luz para a casota. Nessa vidraça batia o sol e foi complicado tirar as fotos. Alem disso desandei rapidamente para não estragar o futuro da família. Penso que eram cinco

 

Depois do almoço fui dar a minha "grande caminhada"!

 

Tinha acabado de sair de casa e chegado à "picada" uma estrada de terra batida e tive logo um encontro com um corvo que levantou voo de um grande pinheiro à minha esquerda. Existe um caminho de terra, no mato e uns pinheiros e sobreiros mas um é bem grande e guarda um bom espaço. Depois de várias caminhadas que fiz lá na área, desta vez deu-me para ir pelo lado dos pinheiros e sobreiros. Vi sair de lá um corvo e torci logo à esquerda. Pensei: "o corvo já foi mas eu vou ver como são aquelas árvores"!

 

Observei o pinheiro com a perícia de um especialista e verifiquei que, afinal, um corvo partira mas houve um que ficou a apreciar o descanso num grande sobreiro. Olhei, apontei a máquina e fui tirando fotos silenciosas. Um corvo permanecia entre os ramos do sobreiro junto ao pinheiro. Olhou-me de lado, de cima para baixo e notei que fora um olhar de desprezo. Pensei com os meus botões: "o raio do corvo deve estar a gozar comigo"! Mas deixei-o ficar e fui-me embora por ali acima. Caminhei entre flores, orquídeas selvagens, malmequeres e muitas outras. O mato tornou-se impenetrável e voltei a descer. Ao passar junto às árvores, o corvo levantou voo e foi-se aos berros. "És um chato, Ventor, nem deixas um corvo dormir a sesta"!

 

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Era uma escuridão entre os pinheiros e sobreiros. O corvo virou a cabeça para o meu lado, olhou-me de soslaio e voltou a colocar-se em descanso como se nada fosse!

 

Achei estranho e disse-lhe: "vais embora porque és parvo. Conforme te deixei ao seguir para cima, também te deixava ao descer. Mas, corvo parvo é corvo parvo, não há nada a fazer"! E o corvo ainda me respondeu: «parvo és tu. Não deixas ninguém, nem um desgraçado de um corvo, dormir a sesta»!

 

Fui dar a minha caminhada, num sítio paralelo à A1. Caminhei ao lado da rede que isola a auto-estrada, ao lado de giestas floridas, de um lado e do outro da auto-estrada. Depois saí dali e fui caminhando pelos campos dentro. Por fim calculei que estava na hora do regresso. Ao chegar à picada, em vez de me dirigir para casa, segui em direcção do Cartaxo. Pensei com os meus botões: "vou indo por aí fora e, quando elas regressarem da cidade, depois de me verem, vão ter pena de mim e dão-me uma boleia. Mas e se elas já estivessem em casa?

 

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Aqui as perdizes estão a conversar. Elas iam no meu encalço mas o que elas não sabem é que eu aprendi a olhar para trás na serra de Soajo, por causa dos lobo e não só. Também em África controlava sempre a minha recta guarda. Se não fosse eu era o Zorba, em Marrupa e o Goldfinger, em Vila Cabral. Pensei sempre encarar o bicho que me quisesse comer!

 

Normalmente, por ali, as perdizes aparecem-me sempre pelas costas. Ouço um zum-zum, volto-me e, lá estão duas perdizes! Mas só dou por isso, quando ouço: "aquele não é o Ventor? Oh, Virgolino, que disparate. O Ventor não anda por aqui"! «Isso é o que tu dizes, Laurinda! O Ventor está por todo o lado. Nunca sabemos quando está a Leste, a Oeste, a Sul ou a Norte e, muito menos quando está no Cartaxo. Ele é como as melgas"!

 

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Aqui elas decidem se fugir se ficar. Ficaram! Entraram numa quinta, direitas a uma casa e embrenharam-se pelas ervas dentro. A única coisa que lhes ouvi foi: "adeus Ventor"!

 

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O Virgolino ainda se sacudiu todo sem saber se desandar se me observar mas, ouviu a Laurinda dizer: "anda Virgolino"! E ele lá foi atrás dela

 

Era um casal que já me conhece. Às vezes um deles até sobe um tronco de oliveira para me observar melhor. São assim aquelas minhas amigas que andarão aflitas a guardar os filhotes. Virei-me para trás, tirei umas fotos e, resolvi desistir de continuar rumo ao Cartaxo. Fui para casa beber e ver se vinha a conhecer os papás dos pequenotes. Vi-os de longe mas nem os consegui identificar. Penso pelo voo de um deles, tratar-se de cartaxos. Há muitos por esse país fora. Onde eu vi mais juntos, foi em Arcos de Valdevez.

 

 

 

 







Eu sou o neto do Tobias, o melro amigo do Quico e do Ventor. Agora sem o Quico e sem o meu avô, estarei por aqui, com os nossos amigos, ao lado do Ventor e do Pilantras


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 22:31