... os estorninhos.

 

Hoje, de manhã, pelas nove horas, encontrei-me no Estádio Nacional com os meus amigos estorninhos e fiquei cerca de uma hora a observar os meus amigos mais uma vez e aproveitei para me despedir deles. Continuei a aprender, com aqueles meninos e os seus papás que o mundo tem coisas belas e maravilhosas para nos oferecer.

Se tivesse observado, com atenção, todos os dias da vida destes estorninhos, provavelmente, já estaria a falar "estornês" como eles!

 

 

Uma beleza entre a folhagem. Este estava esfomeado

 

Quando cheguei, encostei o carro perto da árvore e olhei o buraquinho do seu casarão, escuro, tal como seria antes deles. Não ouvi chilrear e senti que o silêncio já me sufocava. Não tirava os olhos do buraco, na esperança que aparecesse um biquinho aberto a pedir mais mas, o tempo passava e nada!

 

Falei com os meus botões e respondeu-me um pombo-torcaz esvoaçando sobre a minha cabeça: "tem calma Ventor! Ainda agora chegaste e já estás em desespero por não veres os teus amigos"?

Calculava que não os voltasse a ver. Fiquei mais um pouco a pensar como seria a sua saída do ninho. Um trambolhão de cerca de metro e meio, um planar sobre o mato, o desenvencilhar-se das ervas altas, o dar à asa pelo caminho fora, cair, levantar, ... A resposta era o silêncio! Parecia-me o silêncio de um pedaço de mundo que tinha acabado.

 

Tirei a máquina das mãos e coloquei-a sobre o banco do lado. Fiquei ali, silenciosamente, a ver os outros papás dos outros ninhos a levar o comer para os seus filhotes. Num instante ouvi aquele belo som de chamada utilizado pelos estorninhos, bem perto de mim mas, sem direcção. As nuvens tinham deixado de tapar o meu amigo Apolo e a árvore, por trás e sobre o carro deu-me sombra. Os estorninhos devem ser parecidos comigo. O sol espevitou-os.

Abri as duas janelas para ver de onde vinham os sons e fiquei atento à espera de outros. Outra chamada! À minha rectaguarda, do lado esquerdo, o lado do ninho, um dos papás chamava a atenção dos seus meninos. Senti-me mais animado quando, vindo da frente, também do lado esquerdo, vinha a resposta de um dos seus putos negros. Olhei a árvore, já sem interesse pelas fotos mas, interesse em saber se os meninos estariam por ali. Na árvore do ninho, uma bela e velha acácia, estavam os meninos negros, muito quietinhos e só a imprudência de um deles me fez atinar com as suas paragens entre  a folhagem verde.

 

 

O alimento chegou nas barbas do Ventor

 

Um dos papás, esvoaçou da minha direita, mais à frente, para a árvore do ninho, à minha esquerda. Um dos filhotes disse logo: "nunca mais chegavas! É o Ventor que está ali, passa-me a papa"! Ele tão grande ou maior que o seu progenitor! Assim, durante um bocado permaneci ali a ver os meus amigos e a azáfama dos papás a dar-lhes comer, àqueles calmeirões.

Os pais partiram à procura de mais, eu liguei o carro e segui em frente para voltar pela estrada de baixo, para apreciar o jogo deles um pouco mais afastado. Subi e passei pela estrada de cima e, quando passei junto deles, vi-os voar até à outra ponta, com duas paragens pelo meio. Foram pousar junto de umas rosas e só por um segundo não os fotografei com um no meio delas. Vi-os levantar voo e, de árvore em árvore, voltaram à árvore do ninho, sempre com chamamento e resposta, entre eles e os papás.

Na segunda vez que parei junto à árvore do ninho, observei que um dos três, estava com saudades de casa e estava dentro do ninho de onde saiu para se juntar aos irmãos. Segui, dei mais uma vota, a terceira e voltei a passar pela árvore do ninho.

 

 

Por pouco não os apanhei entre as rosas, pertinho do sítio do seu nascimento. Estes já têm uma história para contar aos seus futuros amigos. "Nascemos num mundo de rosas e tivemos um amigo a quem chamam Ventor"

 

Lá estavam os três novatos que estão a aprender a conhecer o mundo. Os papás em árvores opostas e, lá parti, com uma vontade enorme de os ter nas minhas mãos e desejar-lhe toda a sorte do mundo. Talvez um dia os veja nos céus de Lisboa a evoluírem pelos ares do seu contentamento a tentar alegrar as gentes tristes de um Portugal Podre.







Eu sou o neto do Tobias, o melro amigo do Quico e do Ventor. Agora sem o Quico e sem o meu avô, estarei por aqui, com os nossos amigos, ao lado do Ventor e do Pilantras


publicado por Quico, Ventor e Pilantras às 21:57